Às 8h45 da terça feira, 11 de setembro de 2001, os Estados
Unidos entraram no século XXI. A devastação do World Trade Center foi um
evento épico. Vinte meses atrás, na festa da entrada do ano 2000, os
americanos podiam rejubilar-se na sorte de sua nação, seus recursos materiais,
sua tecnologia e poderio militar, que, combinados, fazia dos Estados Unidos a
mais poderosa e influente nação que o mundo já vira desde os tempos da Roma
Imperial. A União Soviética tinha se esfacelado e a nova Rússia implodia. A
ameaça japonesa tinha evaporado. O mundo aderia ao capitalismo americano. Na
terça-feira, toda essa confiança evaporou em meio às colunas de fumaça do
Pentágono e das ruínas do World Trade Center. E dificilmente ela voltará.
Assim
que as emissoras de TV mostraram as imagens do segundo avião mergulhando no
Torre Sul, os americanos lembraram Pearl Harbor, uma ofensiva-surpresa que
roubou a inocência e o senso de segurança da nação. Mas a analogia com Pearl
Harbor é útil apenas como contraste com o que ocorreu no início da semana. Há
60 anos, a resposta ao ataque era óbvia e exeqüível. Aviões de outro país,
o Japão tinham atacados navios e aviões americanos. Em resposta os EUA lançaram
uma ofensiva militar contra seu inimigo identificado. E como o Produto Interno
Bruno americano da época era dez vezes maior que o do Japão, o resultado desse
conflito era previsível. Um país furioso e mobilizado esmagou seu inimigo.
E
é isso, é claro, que os americanos esperam que o mesmo aconteça agora. Lojas
e casas exibem cartazes dizendo: “Sr. Presidente, ataque-os JÁ!”. Mas é
exatamente aqui que terminam as semelhanças com Pearl Harbor. Desta vez, os EUA
não foram atacados pela Força Aérea de
outro país, mas por seus próprios aviões comerciais. Os ataques foram
perpetrados por terroristas bem organizados que exploraram os pontos fortes dos
EUA – a tecnologia, sociedade aberta, empresas aéreas de fácil acesso e
redes de TV – para espalhar o medo. Esse inimigo é descentralizado, difícil
de se identificar. Não será fácil destruí-lo. Derrotar o Japão foi como
acertar um tiro num elefante. Derrotar esses terroristas vai ser como pisar em
águas-vivas.
A
ironia e impudência do ataque não escapou a ninguém. Há poucas semanas,
recalculei o “poderio” americano e a distância que existe hoje entre os EUA
e qualquer outro concorrente à hegemonia mundial é impressionante. Os EUA
respondem por 29% e 30% do produto mundial total, uma porcentagem que vem
crescendo em função da paralisia da economia russa e da desaceleração da
japonesa. No ano passado, 36% dos gastos militares mundiais foram feitos pelo
Pentágono, o que equivale aos orçamentos somados dos nove países que mais
gastam com armamentos e defesa, uma proporção que, acredito, jamais foi
registrada na História. Sua parcela no uso mundial da Internet é de 40% e,
entre 1975 e 2000, ganhou 70% dos prêmios Nobel. Os EUA são o colosso dos
tempos modernos, transpondo o mundo com seus aviões, sistemas de comunicações,
corporações e padrões culturais.
Mas
esse colosso é extremamente vulnerável. Tem um calcanhar de Aquiles que, em
parte, ele mesmo criou. Sua superioridade comercial e cultural e incansável
pregação de doutrinas do livre mercado são vistas como ameaça por vários
grupos religiosos e de classe, em especial nas sociedades tradicionais. Os críticos
dos EUA dizem que suas corporações têm influência demais – e indevida –
no veto a acordos internacionais sobre controle do clima, ao forçar a abertura
de mercados, ao se impor a governos frágeis do Terceiro Mundo.
Seu
irrestrito apoio a Israel arregimenta inimigos no mundo muçulmano. Sua invenção
da internet e seu papel na criação do mercado 24 horas o tornaram um país
rico, mas vulnerável a sabotagem. Sua política liberal de imigração (se
comparada à dos países europeus) e a abertura de suas universidades a
estudantes estrangeiros significam que os EUA recebem pessoas de todo o mundo,
algumas das quais podem ser aliciadas pelo terrorismo. Isso não é uma
fortaleza, mas justamente o contrário.
Essa
contradição entre aparência de inabalável poderio no exterior e a realidade
de ter de lidar com a “nova” ameaça do terrorismo em casa não poderia ter
encontrado imagem melhor do que o deslocamento dos três grupos de batalha para
a costa leste após os atentados. Esses potentes navios de guerra – cada grupo
inclui um porta-aviões com mais de cem jatos, um cruzador Aegis, vários destróiers
e um submarino – constituem um dos mais impressionantes símbolos da presença
americana global. São eles que patrulham o Golfo Pérsico e percorrem o
Estreito de Taiwan. Não há força marítima capaz de enfrenta-los. Mas essa
semana, eles correram para casa, sem que se soubesse qual era a sua missão.
Patrulhar os céus sobre à Casa Branca ou ajudar no resgate de sobreviventes do
WTC? Não foi para isso que foram projetados.
Isso
nos leva à questão crítica de se as Forças Armadas americanas – e por
extensão, as forças ocidentais – estão preparadas para as ameaças do século
XXI. Nos últimos 20 anos, um bom número de especialistas em relações
internacionais e militares vêm dizendo que o Pentágono se aferrou demais a
estereótipos de combates do tempo da 2ª Guerra Mundial e Guerra Fria,
relutando em encarar cenários alternativos tanto em termos das origens como da
natureza dos mesmos. Ninguém pode assegurar que nunca mais haverá um Estado
nazista e é prudente manter efetivos militares como garantia e fortalecer
mecanismos de segurança como a Otan e o Conselho de Segurança da ONU.
Mas
tanques e forças tarefas não são úteis diante de forças de instabilidade e
conflito tais como pressões populacionais, imigração ilegal, desastres
ambientais, desnutrição e violação de direitos humanos –condições que
vemos freqüentemente na África, nos Bálcãs, no Haiti e no Oriente Médio,
onde jovens recrutas para atentados suicidas podem ser encontrados. Além disso,
armas bilionárias de grande porte
não têm muita serventia no combate ao crime internacional e aos cartéis da
droga. Além disso, só têm utilidade mediana no combate a atos terroristas.
Ninguém
duvida que Bin Laden e seus seguidores serão perseguidos e que mísseis serão
disparados contra encostas e cavernas. Mas como organizações terroristas têm
uma estrutura de células, descentralizada, sem um quartel-general, novos
líderes surgirão para comanda-las e mais jovens vão partir para a
luta. Tanto o presidente Bush quanto à mídia americana falaram em “caçar”
os responsáveis, como se terroristas fossem ladrões de banco do Velho Oeste,
em fuga a galope para as colinas de Montana e perseguidos pelo xerife. Ah, se
fosse assim fácil ... As armas e estruturas militares em que o Pentágono
investiu não servem para reduzir
as fontes de instabilidade nem para deter terroristas suicidas ou exterminar a
ameaça terrorista.
Essa
conclusão não é nem nova nem chocante. No início do ano os senadores Hart e
Rudman divulgaram um relatório sobre ameaças
à segurança nacional, alertando para novos perigos e propondo a reestruturação
da defesa. Mas, naquela época, a atenção dos políticos e estrategistas
estava voltada para a aprovação do escudo antimíssil de Bush
e o alerta dos senadores passou despercebido. Diante da catástrofe de
terça feira e do desejo dos americanos de mostrar solidariedade, ninguém ainda
foi descortês o bastante para pedir que Bush ou Rumsfeld explique como um
escudo antimísseis de US$ 80 bilhões poderia ter protegido o World Trade
Center. Mas a hora de fazer essa pergunta chegará.
É
difícil fugir da conclusão de que a ameaça de novos ataques terroristas não
só não vai desaparecer, como também não teremos muito sucesso tentando
evita-los. O gênio vingativo escapou da garrafa e o carro-bomba virou avião-bomba.
Pior ainda, se o mundo terrorista comemora a morte de milhares de americanos
inocentes, porque deveríamos acreditar que usar um avião como arma é o pior
golpe que a vilania bem-organizada e implacável pode desfechar? Quem garante
que estamos a salvo de atrocidades como explodir uma pequena bomba atômica na
Bolsa de Mercadorias de Chicago ou espalhar antrax em São Francisco?
Os
bons tempos de Norman Rockwell dos anos 30, quando os americanos se sentiam
seguros e satisfeitos consigo mesmos, já tinham sido abalados por Pearl Harbor.
Na terça-feira eles foram pelos ares, exatamente como as torres do World Trade
Center.
Não
é isso que os americanos gostam de ouvir. Soa pessimista demais, derrotista
demais. O clamor de todos os lados é por uma reação rápida, algo natural
diante do horror que o país viveu. A cultura americana celebra golpes rápidos
e decisivos, vitórias retumbantes e muitas de liberdades: ser livre do governo,
livre de impostos, livre de interferências Internacionais, livre para ter
carros com alto consumo de combustível e exigir gasolina barata, ser livre para
entrar e sair de aviões com um monte de bagagem de mão, ser livre para se
sentir a salvo de qualquer problema externo. A preocupação e o permanente
estado de alerta que caracterizam a vida dos moradores de Belfast, Jerusalém,
ou de Cachemira é algo que a maioria dos americanos jamais vivenciou e não está
preparada psicologicamente para enfrentar.
Tudo isso deixa os líderes políticos desta democracia com um problema que até agora eles não enfrentaram honestamente. Não disseram ainda, como Winston Churchill, que só tem sangue, suor, trabalho e lágrimas a oferecer. Não disseram que este novo inimigo provavelmente pode ferir muito mais os americanos do que os americanos a eles. Não disseram que antigas verdades talvez não estejam mais de pé e que a antiga estratégia militar não nos servem mais. Não alertaram a população para o fato de que as tradicionais liberdades americanas talvez tenham de mudar. Não disseram que terça-feira, 11 de setembro, os EUA viram de relance o que o século XXI pode estar nos reservando e que o que vem pela frente pode ser mais duro e chocante que o colapso de prédios em Wall Street e um ataque de raspão ao Pentágono.
Paul
Kennedy é professor de História em Yale e autor de Ascensão e Queda das
Grandes Potências.
O
Estado de São Paulo, H4, 16.09.2001.
1. Porque o autor afirma que na festa de entrada do ano 2000 os americanos podiam rejubilar-se da sorte de sua nação? Quais os dados atuais que comprovam a afirmação do autor?
2.
Qual a comparação do atentado de 11/09/01 com o ataque japonês a Pear
Harbor? Qual a ação americana naquela época e qual a que deverá assumir
agora?
3. Porque esse colosso americano é vulnerável?
4.
O que significa “Pentágono”? Em quais armas o Pentágono investiu?
Essas armas são suficientes para enfrentar o inimigo atual?
5. Quais os perigos que ronda a América e os americanos na luta anti-terror?