A descoberta do Brasil situa-se no quadro da expansão ultramarina
portuguesa. Diante dos descobridores portugueses surgiu um novo mundo, não só
novo, mas, principalmente diferente e, que exigiu uma nova maneira de pensar e
de agir.
Embaraçados diante da realidade descoberta, os portugueses procuraram se
apropriar das riquezas, dentro do quadro mercantilista. Antes de ver as
terras e as pessoas, antes de conhecer a maneira como produziam e o que
produziam, antes de conhecer-lhes a religião, queriam saber do ouro e da prata,
No primeiro encontro do capitão, Pedro Álvares Cabral com os donos da
terra, os índios, fica claro a decepção dos portugueses. Não havia notícias
de ouro e da prata: “Eles não lavram nem criam. Não há aqui boi, nem vaca,
nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outro animal que costuma ser
visto onde vivem os homens. Nem comem, senão inhame, que aqui há muito (...)
Até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de
metal ou ferro; (...) Porém a terra em si é de muito bons ares”
Esta terra, desprovida de ouro e prata, de trigo e gado, de ferro e de
vinho, mereceria o desprezo do comerciante ávido de lucros, de comércio, de
metais preciosos e de especiarias.
A visão de Frei Henrique de Coimbra tem um rumo, obscuramente fermentado
nos problemas de Portugal e da Europa. Muitas peças constroem o palco do paraíso:
os homens e as mulheres andam nus, “sem coisa alguma que lhes cobrissem as
vergonhas (...) não plantam nem criam” (...) embora esquivos “a gente é
boa e de boa simplicidade”. A inocência dos indígenas aponta para um caminho
inesperado: a inocência é o caminho do cristianismo.
A mesma fascinação de Caminha volta-se para os homens da armada, os
mais rudes e grosseiros. Denuncia, na carta ao rei de Portugal, que “com estes
dois degredados ficam mais dois grumetes (marinheiros), que esta noite saíram
desta nau (...) fugindo para a terra. Não vieram mais”.
O Paraíso fora feito para eles, eram os senhores da terra nova. Frei
Vicente Salvador completaria o pensamento de Caminha e justificaria a deserção
dos grumetes: a terra seria boa “especialmente para aqueles que vivem, em
Portugal, na pobreza (...) porque a mesma terra (brasileira) é tão favorável
aos que a vão buscar, que a todos agasalha (...)”.
Além das delícias edênicas prometidas por Caminha, se apresenta ao
imigrante português a libertação do trabalho. “Os moradores (que vieram ao
Brasil) tem suas terras, sesmarias doadas pelo capitão (...) e a primeira coisa
que pretendem adquirir, são escravos para nelas trabalharem e, se uma pessoa
conseguir um casal de escravos (indígenas) ou mais, ainda que outra coisa não
tenha de seu, logo tem riqueza para sustentar honradamente sua família: porque
enquanto um pesca e o outro caça, os outros cultivarão a terra e, desta
maneira, não é necessário comprar mantimentos para os escravos, nem para a
família”.
Disso se pode compreender, como serão as fazendas com 200 escravos, ou
mais. Raymundo Faoro, de quem retiramos estas idéias, chama atenção para a
expressão sustentar honradamente sua família, que transfere o suor e a
fadiga ao indígena e o enobrecimento e a riqueza ao colono, que receberá títulos
de nobreza do rei, além dos lucros com as mercadorias produzidas e exportadas.
A colonização da América exerceu então uma atração “afidalgadora”,
uma atração em função de não haver, nem leis nem repressão sexual. Um
escritor português do século XVI escreveu: “No Brasil não se morre senão
de velhice, onde a gente vive em uma admirável simplicidade e ignorância, sem
letras, sem leis, sem qualquer religião (...). Neste país não há trabalho,
nem medo, nem governo, nem submissão”.
Um país sem ouro nem prata, sem as riquezas da Índia, não oferecia
nada ao nobre, ao comerciante, ao burocrata. O Brasil se converteria no alvo das
esperanças dos desfavorecidos, da plebe e, essas esperanças silenciariam
ressentimentos e revoltas contra a burguesia e a nobreza.
Em
Portugal, a nobreza e os comerciantes, estimulados pelos lucros das viagens às
Índias, tornaram-se mais ricos e mais ostentadores dessa riqueza, enquanto o
povo, mais numeroso, faz-se mais pobre e mais consciente de sua miséria.
Esse mundo idílico, voltado para o homem português pobre, durou pouco e
desapareceu como um sonho. Quando a Europa impõe a América suas trocas, seu
estilo comercial, seu sistema de exploração, o encantamento se retraiu e o
duro dia a dia, amargo e sem perspectiva falará sua linguagem.
José Tadeu Cordeiro, com base em
A Invenção Edênica da América, Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, pp.99-104.
Interpretando
o texto
1.Diante
dos descobridores surge um Novo Mundo, não só novo mas
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2.Como
os portugueses se sentiram diante das terras conquistadas?
R.
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3.O
Novo Mundo, desprovido de ouro, prata e das famosas especiarias não interessava
aos comerciantes ou a nobreza. A quem serviria estas terras, em torno das quais
se criou a idéia de um “Paraíso”?
R.
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4.
Como podia o imigrante português “pobre” sustentar “honradamente” sua
família?
R.
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